Artigos

O espírito de ser mooquense

*Elizabeth Florido

A Mooca, reconhece quem a bem conhece, é antes de um lugar, um estado de ser. O ser mooquense. Que expressa o espírito de um lugar. Como já diziam os sábios gregos,  e depois os romanos antigos com seu “genius loci – o espírito do lugar”, acreditava-se que cada lugar tivesse seu espírito. Isso significa que a tradição, a cultura e a identidade local, são ingredientes que não podem faltar para que um lugar desperte tanta paixão e esse orgulho que o mooquense tem de viver aqui. Os nascidos e até os ‘adotados’, que percebem um algo a mais que não se explica, mas que se sente.

Caminho percorrido por índios e jesuítas, morada de imigrantes que ficaram na cidade, reduto da italianada, assim como o Brás, e dos portugueses, espanhóis, lituanos, japoneses, entre tantos outros que vieram para o Brasil, ficaram em São Paulo, e acabaram se estabelecendo nesse bairro de veia operária. E o pulso vibrante dessa brava gente até hoje parece ecoar em cada pedaço de rua onde as pemanencias figuram na paisagem. Experimente vir de trem e pare na Estação Mooca e detenha o olhar, por alguns minutos, na plataforma, olhando a magnitude da edificação do que outrora foi a Cervejaria Bavária, a segunda mais antiga do país, e que veio a se tornar a Companhia Antarctica Paulista. Dizem que pinguins que a representavam, desde o início, fugiram da região mais gelada do planeta para virem até essa porção sudeste do Brasil, e viveram muito bem. Obra de alemães! Só podia ser na Mooca! Deixando um pouco de lado a brincadeira, mas mantendo o espírito do lugar, saímos da Alameda Bavária, lugar de tantas indústrias até os dias de hoje, e que também mudou de nome com o tempo, e optamos vir para o lado de cá da estação, em outra alameda, hoje Borges de Figueiredo, lugar de indústrias que fizeram história em seu tempo, do italiano Gamba aos irmãos Puglisi. Sem esquecer da presença marcante dos Matarazzo, hoje apenas escombros, cujo desenho externo fabril, permanece na visão de quem passa de trem, apenas para manter um pouco do clima de época. O espírito do lugar. Solução que se tornou recorrente em cidades antropofágicas como São Paulo, a que os órgãos de preservação se fazem valer.

Assim foi também, na mesma Borges, em frente, na extinta Companhia União dos Refinadores, aquela do açúcar União e do café Caboclo, cuja chaminé é elemento central de conjunto de prédios onde alguns amigos lá moram. De chaminé a farol, virou uma marca no logo e na paisagem. Marca indelével de um tempo que se foi e, em especial, da presença humana. Fabril. Antropofágica. Os historiadores de Arquitetura diriam, por certo, que fica comprometida a interação entre lugar e identidade quando se adultera a paisagem natural, ou como nesse caso, o ambiente local. Fui até estudar sobre isso. Voltei para a Universidade. Deixei ali, naquela tese de Mestrado, um campo aberto, espero que fértil, para que outros encontrem respostas e soluções.

Damos um salto pela linha férrea da estação, lembrando que ali é possível conferir vestígios do antigo ramal da São Paulo Railway Station, a Santos-Jundiaí, com passarelas históricas de ferro inglês ou escocês trazido de navio, desmontadas e sem uso, mas ainda por lá. Quando se está na antiga Hospedaria dos Imigrantes, feito hoje Museu da Imigração, num simples exercício de sentir o lugar, dá para imaginar o burburinho de imigrantes de tantas partes, acolhidos naquele primeiro endereço de suas vidas no Brasil. Se o exercício for mais profundo, dá para se vislumbrar vagões lotados de imigrantes, chegando a cada apito de trem. Talvez tenham sido eles, a despeito das dificuldades todas por que passaram, os primeiros a sentirem aquele espírito de um lugar que trouxe esperança de dias melhores, e o pão suado de cada dia.

Por isso e por tantas outras razões, é que a Mooca, mais que um lugar, tornou-se um caso de amor que não se explica, apenas se sente. E viva a Mooca de ontém, hoje e sempre! Mooca quattrocento!

*Elizabeth Florido, jornalista, é moradora e historiadora da Mooca.