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Escola sem partido

*Professor Dante Donatelli

Fôssemos dar uma opinião rasa sobre a questão, diríamos que sim a escola não pode ser partidarizada, ou proselitista. Ela deve facultar e instigar a discussão de todos os temas. Contudo, penso que atrás desta proposta em vias de ser votada, há claro interesse em suprimir assuntos e censurar os livres pensadores, o que contraria frontalmente meus princípios filosóficos e de educador. Assim, sou absolutamente contra a chamada escola sem partido. Ofereço alguns argumentos para tal.
O ponto inicial é o obvio. A gestação desta lei está nas mãos de um grupo de pseudo intelectuais que toma o texto sagrado e o lê ipsis litteris. É o nosso Talibã tupiniquim de inteligência curta e leitura medíocre. Há uma nítida transposição de categorias de caráter religioso no âmbito da razão iluminista que guia a escola.
Independente do que alguns digam, a escola é um lugar criado, pensado e inventado pelo iluminismo, assim, são as ideias que movem a escola, ideias de toda sorte, até aquelas que atestam uma lógica criacionista. A beleza legada pelas luzes do século 18 é a possibilidade de tudo ser pensado, tudo ser discutido, tudo ser estudado. E neste caso, o torpor dos que defendem a escola sem partido é não entender, e não saber a diferença entre o pensamento crítico e o pensamento marxista por exemplo. Algo bem diferente e diverso, mesmo que pudéssemos argumentar ter sido o século 20 um momento de efervescência intelectual na qual “os marxismos” foram um dos mais relevantes instrumentos de pensamento goste-se, ou não. Não se pensa em ciências humanas sem que haja uma escola crítica como os estruturalistas ou mesmo pragmáticos. Da mesma forma não se pode discutir o liberalismo, com sua proposta de estado mínimo, sem analisar o pensamento e as obras de Adam Smith.
No final das contas não é somente isso que está em jogo. O mundo das ideias é mais, muito mais. Imagine um professor de inglês que ofereça como leitura aos seus alunos o gênio de Oscar Wilde, e um trecho do seu De Profundis, e a família, bem ciosa ao ler a biografia de Wilde acuse o professor de promover e defender o homossexualismo! Em O Espelho Machado de Assis argumenta que tenhamos não uma, mas duas almas, e todas as implicações decorrentes. Caso uma professora apresente a obra poderá ser acusada de proselitismo e de blasfêmia, já que o conto faculta também uma série de interpretações acerca de nossas crenças e valores.
O ato de educar e o conhecimento humano se permitem qualquer coisa quando se põe diante dele um objeto inteligente ou instigante. A escola não professa dogmas, a escola não tem crenças. A escola é a razão iluminista a formar a sociedade.
Todo ato de exagero ou escárnio é digno de reprovação ou contestação, no mesmo plano, o do diálogo e do pensamento mediados pela linguagem. Amordaçar a escola, estimular a denúncia como meio de se calar professores é o reto caminho que nos conduz a vala comum onde residem fanáticos ignorantes, amantes de uma literalidade exegética e uma moralidade por tudo questionável no qual a mediocridade é irmã gêmea da decadência. Portanto, não a escola sem partido.

* Professor Dante Donatelli é filósofo, pedagogo e diretor do Colégio João XXIII.